POR UM BRASIL DE MULHERES VIVAS

O massacre criminoso das mulheres brasileiras, nos últimos anos, é tão abjeto quanto revelador. O Brasil carrega consigo uma bipolaridade moralista e sexista só explicada pela herança do período colonial. O país com a maior e mais permissiva festa popular do mundo, o Carnaval – a “invenção do diabo que Deus abençoou”, segundo versos musicais de Caetano Veloso – é o que mais mata pessoas transgêneros e travestis no mundo. Atualmente, é o quinto país do mundo em número de feminicídios.

Levante “Mulheres Vivas”, realizado em todo o Brasil: o Maranhão não se calou

Em “Trópicos do Pecado – Moral Sexualidade e Inquisição no Brasil”, Ronaldo Vainfas menciona o “projeto moralizante” e o “projeto escravocrata no seio da cultura escrita de nossa Colônia”. Durante este período, o padre Manuel da Nóbrega chegou a escrever, em uma de suas cartas, que os indígenas “eram como papel branco onde se poderia escrever à vontade”. A história dos escravizados no país é ainda mais perversa com vasta bibliografia.

O que dizer de um léxico que incorporou a palavra “mulata”, com origem no século XVI, referente aos filhos de pessoas negras e brancas, comparando-os à “mula”, resultante do cruzamento de um cavalo com uma jumenta?

A formação do Brasil é marcada pela dominação e pela exploração – tanto das nossas riquezas naturais quanto dos povos originários e tradicionais. Os tataranetos dos senhores de engenhos, dos capitães do mato e de outros personagens masculinos, muitos elevados à categoria de “heróis nacionais”, agem hoje como se fossem proprietários de suas fêmeas. O machismo nacional possui raízes podres e profundas, inclusive em mulheres que consideram “feiura” em outras mulheres. A violência de gênero começa desde as piadas infames, feitas em qualquer bar da esquina ou criminosamente manifestadas por pessoas públicas, como o hoje presidiário Jair Bolsonaro, com seu repertório criminoso de expressões como “fraquejada” e frases como “pintou um clima” (com “menininhas”) e “eu não te estupro porque você não merece”.

Tão grotesco quanto o comportamento de homens, que matam mulheres por elas serem mulheres, foi a violência sofrida, no último dia 29, por Taynara Souza Santos, de 31 anos, atropelada e arrastada por 1 km, por Douglas Alves da Silva. Tainara segue em coma induzido, já passou por duas cirurgias para amputação das pernas e colocação de pinos no quadril, além de outros procedimentos como enxerto de pele. Em Açailândia (MA), uma mulher foi decapitada com um facão por um homem que procurava sua ex-companheira que fugia do relacionamento abusivo.

Cruzes com nomes de mulheres maranhenses vítimas de feminicídio fincadas na Praça do Carmo

O levante Mulheres Vivas, realizado neste domingo (7), nas ruas de todo o Brasil, foi um grito de dor, de luto e de protesto. O Maranhão também não se calou. Veja alguns registros do movimento em São Luís.

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