Cerca de 70% da população de São Luís utiliza, diariamente, o transporte coletivo urbano. Muito além das reivindicações salariais e adicionais, a crise vem expondo um sistema deficitário na mesma proporção das frequentes paralisações. Foram deflagradas greves em 2021, 2022, 2023, 2024, 2025 e agora, mal começou 2026, mais uma paralisação acontece na capital.
Os buracos são mais profundos do que os conflitos envolvendo os repasses financeiros da Prefeitura às empresas. A frota de veículos em São Luís cresceu cerca de 50%, entre 2010 e 2020 (IMESC/2021), provocando gargalos ainda maiores para quem precisa se deslocar no trânsito da capital.
Cerca de 700 mil usuários de ônibus estão prejudicados, provocando um efeito dominó na economia das empresas. A frota de ônibus do Sistema Integrado de Transporte (SIT) recebeu reforços, mas não consegue atender às demandas da população. Tanto que São Luís, Teresina, Rio de Janeiro, Porto Velho e Salvador foram incluídas no Estudo Nacional da Mobilidade Urbana do BNDES, em parceria com o Ministério das Cidades, por apresentarem os piores cenários no Brasil, após análise de 21 regiões metropolitanas brasileiras. O estudo, finalizado em 2025, analisou e identificou baixos investimentos, lotação, tempo de espera e frota reduzida e infraestrutura deficiente nestas capitais,
São problemas que asfixiam a cidade e que deveriam ter soluções apresentadas por um pretenso Conselho Municipal da Mobilidade Urbana, previsto por lei (6.292/2017), porém sem nenhuma atuação consistente.

No documento enviado ao Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros de São Luís (SET) pela Manifestação de Interesse na formulação de um Termo de Ajuste de Conduta, expedido ontem (2), o Ministério Público do Estado do Maranhão (MPMA), por meio da promotora de Justiça, Alineide Costa, destacou a crise do transporte coletivo urbano no Município de São Luís, descrevendo a “natureza estrutural, marcada por falhas persistentes de governança, déficit de transparência, instabilidade regulatória e risco concreto à continuidade de serviço público essencial”.

A “caixa preta” da relação entre as diversas administrações municipais e o sindicato das empresas de transportes de passageiros de São Luís permanece sem acesso e chega ao seu ápice agora. Em janeiro, o SET notificou extrajudicialmente a Prefeitura de São Luís pelo atraso no repasse de R$ 6,16 milhões referentes ao subsídio de dezembro de 2025. O sindicato alega que a falta desses pagamentos compromete a folha salarial dos rodoviários e a manutenção da frota.
A falta de transparência na gestão municipal chega a ser tão disparatada que um vereador, Andrey Monteiro (PV), precisou elaborar um projeto de lei (PL nº 280/25) para instituir a “obrigatoriedade de transparência” sobre a arrecadação e a destinação dos recursos financeiros provenientes de multas de trânsito no município.
Especula-se, sem comprovação, que entre janeiro e setembro do ano passado, mais de 100 mil multas foram aplicadas pela Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes (SMTT) de São Luís, gerando uma receita de R$ 28,8 milhões. Como é de conhecimento dos profissionais de Gestão de Crises, o antídoto para a boataria é a informação oficial. Não existe nem transparência e menos ainda comunicação pública na Prefeitura de São Luís.