SÃO LUÍS: MERETRIZ, ATRIZ E MATRIX

Em meio aos paralelepípedos do Centro Histórico de São Luís, vestígios de uma Cinderela sem conto de fadas, tendo a realidade como madrasta má.

Os bailes – com sapos condenados a jamais se transformarem em príncipes, consumidores de sexo, dubladores da solidão – são regados a cerveja misturada ao hálito dos esgotos, ao som de serestas, sem carruagens, somente com as abóboras do Mercado Central.

Os sapatinhos esquecidos são de uma vida mais frágil do que cristal, que passa nas ruas ser ver o vigia da música de Chico Buarque, “que cata a poesia” entornada no chão.

A Rua da Saúde é passagem de muitos personagens adoecidos, que perambulam em busca de sobrevivência ou de evasão da própria vida desgraçada, em espécie de metonímia de si mesmos como uma Rua dos Afogados.

Uma mixagem de Passagens, de Walter Benjamin, modernidade, consumos e fantasias, com As Vitrines, de Chico Buarque.

Não são instagramáveis (no sentido imbecil do neologismo). São muitos em situação de rua; outros sem endereço psíquico, aprisionados por substâncias químicas. São mulheres trabalhadoras do sexo, que usam maquiagem como pedreiros manejam o barro para sobreviver e bijuterias como enxada ou anzol.

A crônica não é mero diletantismo literário. Tampouco pretende ser o gigolô que se aproveita dos fatos e da foto. Os sapatos pelas varizes da capital são um registro de que, para alguns, não foram oferecidos outros caminhos. Para eles, a folia será sempre mera alegoria de uma São Luís que é atriz, meretriz e Matrix.

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