A POLÍTICA DA ANTIPATIA PELA IDEOLOGIA

Nem Debord, com sua “Sociedade do Espetáculo”. Tampouco Bordieu em “O Poder Simbólico”. O buraco do vazio da política, hoje em mutação nas redes sociais, é muito mais profundo do que anunciavam os futurólogos. A acepção original do grego antigo politikós – relacionada à pólis, cidade, em referência à vida urbana, ao público e ao social – parece apagada diante da imposição da espetacularização de tudo. A política na vitrine das redes sociais é um fast food oferecido à maioria esmagadora dos eleitores sob os efeitos do infinite scrolling (rolagem infinita).

Estrategistas de comunicação política, como Juarez Guedes, mencionam preocupação com a “idiotização da política”. Não sem razão. Depois da dança patética com o título Funk do Zero Um, a Folha de São Paulo do início deste mês (11/4) trouxe a informação: “Flávio Bolsonaro busca marqueteiros que evitem tom radical na campanha”. No Maranhão, um perfil no Instagram comenta: “Eduardo Braide vai seguir neutro. Não vai declarar apoio a Lula e nem a Flávio Bolsonaro” – quiçá em alusão a um projeto de candidatura sem glúten, sal, pimenta, tempero seco ou de ciborgue na era dos bots.

A palavra “política” também vem sofrendo os efeitos do empobrecimento de uma época de antipatia pela ideologia. O ex-prefeito também dizia que as graves de ônibus em São Luís eram “greves políticas”. Como não considerar político um movimento de paralisação não somente de trabalhadores, mas da maioria da população que depende dos transportes coletivos?

“Eu acho que hoje no Brasil, no estado, nos locais, toda vez que você vê uma pessoa discutindo ideologia é porque não tem obras pra mostrar”, filosofou o próprio garoto-propaganda de sua gestão, em março passado, num evento para anunciar obras antes de se desincompatibilizar do cargo. O que diriam Marx e Engels, que escreveram “A Ideologia Alemã” com ironia para atingir os jovens hegelianos distantes das lutas pelas condições reais de vida?

Não é novidade ver futuros candidatos e candidatos à reeleição fazendo dancinhas, andando de skates ou montados em cavalos. FHC comeu buchada de bode. Jânio Quadro fez fotos com a vassoura, símbolo que iria varrer a corrupção do país. O que está em jogo, na contemporaneidade, é a representação de uma vida indissociável das mídias sociais.  E muito mais do que isto: “o efeito, multiplicado por bilhões de usuários, tem sido a transformação da própria sociedade”, afirma o repórter do New York Times, Max Fisher, autor da obra “A Máquina do Caos – como as redes sociais reprogramaram nossa mente nosso mundo”.

O poder – objeto almejado em todos os períodos da história da humanidade – descentralizou seu eixo, tornando-se aberto, colaborativo, fortalecido por engajamentos e comunidades virtuais. São fenômenos muito complexos e ainda com poucas respostas nos campos da Comunicação, Direito, Economia, Sociologia, entre outras áreas do conhecimento.

Novos e recorrentes desafios surgem aos profissionais, muito além das dancinhas: são algoritmos que priorizam conteúdos emocionais e polarizadores, aplicativos de mensagens (WhatsApp e Telegram) dificultando a checagem de fatos e a possiblidade de atingir perfis psicológicos distintos, como comprovou o caso Cambridge Analytics.

Tempos esquisitos, estes, de certa política que vê a ideologia como uma tia.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *