No portfólio da minha diversificada e irrequieta atividade profissional, existe a esdrúxula experiência de ter sido a única jornalista maranhense a ocupar a capa de um jornal. O case é uma exceção à regra e costuma ocorrer, com mais frequência, quando morre um dos colegas. No Maranhão, somente o jornalista e blogueiro, Décio Sá, assassinado com 6 tiros, em 2012, ocupou as manchetes principais dos jornais locais na época.
Além de ter sido capa de notícia fictícia, guardei muitas pérolas (de bijuteria), em dezenas de notinhas publicadas num jornaleco criado com única finalidade de achincalhar o governo do qual fiz parte, com textos do tipo: “Antes, a Flávia Regina, ou Flavinha como é mais conhecida nas redações, era uma mulher lapidada para atuar na linha de frente do jornalismo moderno. Hoje, nem sua capa de intelectual pode mais lhe dar a credibilidade que antes lhe era reconhecida. O esquema montado em seu gabinete é digno da política de propaganda nazista”. Por respeito aos leitores, não irei expressar os risos contidos que esta e outras notas hoje me provocam.
Mais do que um tabloide, era uma campanha orquestrada contra o governo José Reinaldo Tavares, que sofria ataques diuturnos em rádios, jornais e TVs, por parte dos que tinham seus interesses contrariados. Mas, felizmente, a tentativa de matar a minha reputação, após a eleição do governador Jackson Lago, em 2006, não surtiu efeito.
O amigo publicitário Carlos Mallmann chegou a sugerir que eu escrevesse um livro para descrever estes e outros episódios da minha trajetória, mas vieram novos desafios, mais aprendizados e muitas outras experiências. Os dissabores da época hoje fazem parte de uma bagagem que busquei tornar aprimorada com cursos de Gestão de Crises, Comunicação Política e Eleitoral e com a compreensão idealizada de que o interesse público e os anseios coletivos devem ser a finalidade precípua da Comunicação Pública – o que nem sempre coincide com os da Comunicação Política.
De todas as formas, Comunicação é poder. Sempre foi assim. Na Roma Antiga, Júlio César fazia propaganda de seus feitos de guerra pela “mídia” da época, com papiros, placas, tabuletas e mensageiros. As invasões de Napoleão Bonaparte incluíam o fechamento de jornais e a fundação de outros periódicos. Hitler criou o Ministério do “Esclarecimento Público e Propaganda”, com Goebbels, para fechar todos os jornais de oposição e transformar a imprensa em órgão de Estado.
Na contemporaneidade de hiperconectividade, digital, interligada e instantânea, o impacto é avassalador. Poder sem comunicação não se sustenta. E nem há necessidade de citar os “fenômenos” das redes sociais, Erika Hilton (PSOL) ou Nikolas Ferreira (PL).
Existe um fio que separa os rigores do bom jornalismo da comunicação política, por vezes inviesada. Em ambos, prevalece a máxima: contra fatos não há argumentos. Existem cada vez mais formas sofisticadas de produzir factoides que as redes sociais se encarregam de disseminar seguindo a lógica do viés da confirmação.
A guerra eleitoral estadual já começou, de forma acirrada, notadamente nas narrativas, de um ou outro lado. As críticas de uso da comunicação a serviço dos candidatos oscilam entre ingênuas ou dissimuladas. Atire a primeira pedra o governo que nunca teve sua tropa de choque de blogueiros ou seus atiradores de elite nas rádios, TVs e sites. Eu fui alvo mesmo do lado do poder.
Criticar a comunicação política equivale a atirar nas próprias metralhadoras. É julgamento do Tribunal de Nuremberg sem vencedores. Ou, no conselho que recebi (e nunca esqueci), certa vez, de um outro amigo, ex-deputado e ex-ministro: “não vai te comportar como virgem em baile de puta”. Comunicação é poder, pode crer. E neutro é xampu: de bebê!
Flávia Regina Melo é publisher do blog Buliçoso
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