O texto abaixo foi um dos primeiros registros publicados sobre a maranhense Pureza Loyola, que dedicou sua vida à luta contra o trabalho escravo. O perfil foi escrito em 1998 pela editora do blog. Somente em 2023, a trajetória de Pureza foi transformada em filme, tendo a atriz Dira Paes interpretando sua história.
“Eu sou uma formiga desaguando o oceano com uma peneira”. A voz forte da lavradora maranhense Pureza Lopes Loyola, 55 anos, rasga a manhã de quinta-feira em uma das salas da sede da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em São Luís. A formiga, que tem força no olhar de onça, se embrenhou pelas matas interior do Maranhão, desafiou gente graúda, pelejou, pelejou e acabou transformando uma causa pessoal em luta pela dignidade humana, reconhecida na Inglaterra com o Prêmio Anti-Escravidão da ONG Anti-Slavery Internacional (1997).
A biografia de Pureza Loyola é marcada por cortes. Aos 31 anos, ela perde o irmão Ataíde José Lopes, que desaparece de casa sem nunca mais voltar. Durante anos, a única pista era a fazenda Cacique, no Pará, onde o rapaz estaria em regime de trabalho escravo. A dor da perda deixaria lacunas profundas. “Era uma tristeza muito grande. Meu pai só falava nesse filho até enlouquecer. Fiquei muito chorosa, revoltosa quando vi meu pai amarrado, ir para a colônia Nina Rodrigues”, recorda. Tempos mais tarde, seu filho, Antônio Abel Lopes Loyola, desapareceria, aos 19 anos, sendo levado nas mesmas condições para Açailândia, sul do Maranhão, pelo homem conhecido como Anderson Veras, que atua na região como “gato” (contratante que surge com promessas falsas de bons salários, moradia e transporte aos trabalhadores rurais).
Odisseia de mãe – “Como ia deixar meu filho à toa?”, diz em tom de inconformação. Quando saía, perguntando pelo paradeiro do menino, diziam que ele estava no garimpo. Em São Luís, procurou o então deputado Clodomir Filho, de Bacabal. Foram até a Polícia Federal, onde ela prestou depoimento: “A Federal tomou meu depoimento, disse que mandava para Brasília e até hoje, até neste momento, nada!”. Com a obstinação do amor que as fêmeas dedicam às suas crias, Pureza não desistia. “A polícia calou-se e eu vim até o Dr. João Alberto de Souza, dizendo a ele que, como maranhense, pessoa de Bacabal, estava precisando dele. E não sei o motivo por que ele não me encaminhou”, relata.
A odisseia estava só começando. A lavradora conseguiu uma passagem para Brasília e lá percorreu corredores do Congresso, gabinetes e mais gabinetes. Deputados não a recebiam, a história de Pureza não cheirava bem aos narizes empinados da capital do poder. Depois de quatro dias, um assessor do ministro do Trabalho, Paulo Rocha, convoca-a para uma reunião. “Lá ouvi tanta promessa que fiquei alta do chão! Que iam ajudar, iam fazer, iam acontecer, que meu filho ia aparecer, esse negócio ia acabar… dependia só de eu voltar pro Maranhão e dar um relatório na DRT”. Isso feito, formava-se uma equipe com integrantes da Polícia Federal e Ministério do Trabalho para percorrer fazendas na fronteira nervosa entre o sul do Pará e Maranhão. “Eles passaram 30 dias e nunca localizaram um trabalho escravo. Eu tenho até um relatório em casa. Com aquilo eu me desesperei!”
Pureza, que até então já havia abandonado a própria vida pela busca desesperada do filho, volta a Brasília com sua pastinha de relatórios na mão e procura sem resultado a Polícia Federal e a Procuradoria Geral da República. “Eu disse: vocês estão me mandando para outros país? Quando eu disse assim, não maldava que ia abalar o mundo!”
Ela precisou percorrer meio mundo, “botando a fé para provar”, como prefere afirmar. Foram quase 25 mil quilômetros, durante três anos e dois meses, para ter de volta o filho Abel. Sem comer e beber, durante horas, andando por dias em estradas a pé, em canoa, montada em animais, ela se alimentava desse estranho e incondicional amor que só as mães é dado.
“Eu queria meu filho perto de mim e já andava com uma toalha dentro da bolsa porque se achasse ele, ia enrolar dentro da toalha, juntar cabelo por cabelo. Eu disse à justiça de Bacabal: eu mesmo quero juntar meu filho onde ele estiver e levar para casa”, narra.
Em uma de suas viagens, representantes da CPT e uma repórter da Folha de São Paulo receberam a informação de que o rapaz estava em uma fazenda em companhia de 400 lavradores, que trabalhavam sob as ordens de 22 pistoleiros. Ao chegarem no local, ele já havia sido transferido. Muda, sem querer comer, um fiapo de vida, só tinha fome de encontrar o filho. Pureza juntou a força que restava e avisou ao Padre Flávio (Flávio Lazzarin, coordenador da CPT/MA à época) que todos podiam ir embora, mas que ela iria ficar, iria buscar o menino, custasse o que custasse.
“Eles perguntaram com quem eu ia. Eu disse: eu vou com Jesus”. A busca se transformava em uma das maiores denúncias de trabalho escravo na região. Aquela senhora sozinha, gravava tudo que encontrava pela frente. A formiguinha brigava pela vida, esmagava as adversidades. Quando as fitas quebravam, ela remendava com uma cola feita de tapioca, água e agulha. Percorreu Açailândia, no Maranhão, Rondon e Paragominas, no Pará. Descobriu fazendas com trabalho forçado como a Estrela Dalva, a Fazenda Gavião, em Codó, a Água Parada, com dois ônibus de trabalhadores “dizendo que iam para o garimpo” e se hospedou no hotel Pioneiro, em Paragominas, conhecido por hospedar trabalhadores e “gatos” em trânsito para fazendas.
Pureza virou especialista no assunto: “Eu não chamo trabalho escravo, aquilo é campo de concentração”.
Como dublê de repórter e socióloga, ela presenciou algumas das cenas de barbárie mais fortes na última nação independente a abolir a escravidão dos negros. Na fazenda Idará, no Pará, trabalhadores eram amarrados de cabeça para baixo e alvejados de bala. “Eles amarravam pé e mão, atiravam até quando só tavam as tiras e ficavam tomando cerveja”, relata. Testemunhas lhe contavam que o famoso pistoleiro Chicó chegou a amarrar um trabalhador, que estava com dor de dente, em um pau. “Ele arrancou o dente com um alicate e o rosto do homem ficou preto, todo deformado”, afirma. Foi Pureza quem denunciou a queima de trabalhadores rurais no município de Santa Inês: “quando denunciamos o grupo Nunes, eles venderam a fazenda para o pessoal do Café Maratá”.
Bem antes de fazer da sua vida uma luta em favor da justiça social, Pureza mandou cartinhas aos presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. “Mandei uma cartinha ao presidente da República com documentos e fotografias e o conto do sofrimento: vi um rapaz com a cabeça cortada, pelo amor de Deus me ajude a salvar os trabalhadores e meu filho”. Depois de um ano, veio a resposta oficial, distante, gélida: “Acuso ter recebido sua carta, enviada aos Ministérios da Justiça e do Trabalho, órgãos competentes, etc, etc….”
Nenhuma acusação, nada resolvido, Pureza decide escrever outra cartinha: “Olha, presidente, as fotografias é só pra ver como é o sofrimento e como a gente chega lá, não era para ficar. Eu quero as minhas fotografias de volta”. Um ano se passava e nada. Certo dia, abatida, mas com a insistência dos vitoriosos, Purezinha abre a Bíblia e encontra aquele trecho que diz: “Não adianta o homem ganhar o mundo se perder sua alma”. A luz clareou a última carta a FHC. “Eu escrevi: Presidente da República, essas palavras são para você e sua família. Se você aceitar Jesus como seu salvador, ele vai governar o país em cinco minutos. Agora me mande minhas fotografias! ”. 15 dias depois, o envelope presidencial devolvia as fotos.